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Relação abusiva – Relato real de um homem.

22 de maio de 2017

Predadores não escolhem suas presas por gênero. E sim! Eu sou um homem, já fui vítima de uma relação abusiva e este é um relato real. Relato que ponderei muito antes de escrever e até mesmo tornar público, não só pelos envolvidos, mas também por mostrar um ponto fraco… uma fragilidade pessoal.

Cheguei à conclusão que não poderia ficar quieto depois de ser procurado eletronicamente por um grupo considerável de pessoas, predominantemente mulheres, que me relataram todo tipo de abuso, começando pelo emocional, físico e também sexual. O que todos tinham em comum? Esses abusos foram praticados por seus parceiros, ou parceiras.

Porque falar?

Eu não poderia ficar quieto… me calar faria com que outras pessoas se tornem vítimas, talvez até da mesma pessoa, e isso me torna tão culpado quanto. Ficar calado me faria ser coautor dos palavrões, tapas e até estupros que todas as mulheres e homens sofrem em silencio de seus predadores todos dias. E por isso hoje me exponho.

A maioria das pessoas me procuram por conta da minha formação em psicologia, embora não possa realizar nenhum tipo de intervenção eletronicamente, entendo o sofrimento e as deixo desabafar, colocando todos os seus demônios para fora, e no momento apropriado, além de conforto, as sugiro a busca por uma escuta profissional, podendo indicar o psicólogo se assim desejar.

Ser formado em psicologia, e de fato sou TAMBÉM um psicólogo, não me imunizou se ser vitimado justamente pelo emocional. Aliais, é um erro presumir que um psicólogo é um Wolverine da mente, capaz de suportar e cicatrizar todo tipo de agressão emocional em questão de minutos. O que nos diferencia de qualquer outro profissional é a escuta, mas por detrás do divã somos apenas um humano qualquer.

O início.

Não nego que a amei, e talvez no começo o sentimento talvez fosse recíproco até que essa suposta reciprocidade se tornou uma vantagem para ela e uma prisão para mim. Prisão, que demorei a perceber que estava confinado, sendo sugado, definhando, me isolando…

A princípio tudo era perfeito. A história tinha traços de contos de fadas, com um amor da adolescência aparecendo em sua vida mais de uma década depois. Os olhos se encontram, sorrisos são dados e em poucos dias estamos entregues a uma paixão devastadora.

Escutei muitos “somos almas gêmeas”, outros “fomos feitos um para o outro” e até alguns “pedi você em minhas orações”. Mas, os sinais dificilmente são percebidos em um primeiro encontro.

Demonstrações exageradas de afeto – Primeiro sintoma.

Lembra quando eu disse que ser um psicólogo não me imunizava das armadilhas emocionais? Uma característica comum dos predadores, é que eles demonstram por vezes o seu suposto sentimento de forma exagerada e publica, mas este sentimento nunca é de verdade para você. Eu sabia disso e ainda assim ignorei o alerta.

Em teoria, as demonstrações eram para mim, mas na prática o objetivo era mostrar para outras pessoas. Era gerar posts com fotos bonitas e muitos likes. Era mostrar para minha família (a qual ela via como uma rival) que ela estava me “roubando”.

Essas demonstrações não aconteciam na nossa intimidade. Elas não eram para mim. Elas eram apenas uma afirmação de posse. Na nossa vida privada a coisa mudava de figura, eu precisava aceitar os “agrados” (alguns pagos com meu cartão), sorrir de determinado jeito, eu era OBRIGADO a parecer feliz… e isso teria que ser público.

A bolha social – Quando você não pode ter mais ninguém no mundo.

Sintoma clássico de dominação, mas quando se está apaixonado é confundido com atenção. Eram muitas ligações, SMSs e “zap zaps”, com menos de um mês de relacionamento. Falando assim parece fofo, mas na prática não era atenção que eu recebia, pelo contrário, eu estava sendo vigiado.

Ela começou a se fazer presente 24 horas por dia, ao ponto que eu mal podia falar com meus amigos. Sair? Nem pensar. Ela já tinha feito a programação por mim. Qualquer coisa fora disso se convertia em um inferno astral, mesmo que seja um compromisso familiar, ou um amigo realmente precisando de ajuda.

Eu estava ficando ocupado demais com ela para viver e correr atrás dos meus sonhos…

Acelerando tudo – pulando todas as etapas. O bote do predador.

Até agora todos os sintomas foram “leves” e podem ser facilmente confundidos com sinais de afetos, mas todo predador percebe que um dia pode perder seu controle….

Com pouco mais de um mês eu comecei a ser cobrado para assumir um compromisso maior que um namoro. Me via sendo pressionado a morar junto de formas nada sutis, que variavam de humilhação, questionando minha masculinidade por não tomar uma decisão por ímpeto, sendo acusado de não querer me mudar por ser um “filhinho da mamãe”. Até com jogos sexuais eu sofri.

Quando viu que seria difícil, de repente ela não poderia utilizar métodos anticoncepcionais, por questões de saúde. Pode até ser verdade, mas após ver todo o cenário se tornou difícil de acreditar. Perdi a conta de quantas suspeitas de gravidez houveram naquela época.

A raiva inexplicável.

Depois de um tempo, nada mais poderia sair de seu controle. Suas explosões de humor se tornaram comuns. Se eu não poderia fazer algo para ajudá-la (e eu ajudava bastante, inclusive financeiramente), objetos eram quebrados e eu escutava todo tipo de atrocidade, algumas que realmente machucavam, pois eram coisas intimas que ela sabia que me afetariam.

Houveram inclusive ameaças de que ela seria capaz de inventar algo para a polícia com o intuito de me prejudicar, com a certeza de que eu seria punido por ser homem. Outra vez, ela disse seria capaz de alienar um hipotético filho nosso, apenas para que a criança não tenha contato com a minha família.

A certeza de controle dela era tão grande, que ela esfregava isso na minha cara. Até hoje me pergunto porque eu não terminei tudo antes.

O terrorismo emocional.

Depois de ser conquistado e ficado mal-acostumado com um carinho que nunca mais iria receber, vieram as chantagens emocionais. Não havia uma virgula que eu colocasse diferente dela que não viesse acompanhada de uma ameaça de rompimento da relação.

A relação em si virou arma de controle. Se quisesse ter o suposto amor dela, tudo teria que ser feito da sua forma. Dialogo não existia, mesmo quando eu insistia para sentarmos e resolvermos os problemas de forma racional. Era de seu jeito, mesmo quando era evidente que iria dar errado, ou tudo estava acabado.

Eu era refém, apenas por querer estar na relação.

A culpa nunca é dela.

Algo bem evidente em relacionamentos abusivos é que os predadores sempre têm uma série de problemas, mas a culpa nunca é deles. É sempre dos exs, dos familiares e de outros desafetos, e talvez sua.

Ela me envolveu em uma espécie de bolha social, de um jeito que todo mundo fora parecia errado, mas ela a certa, mesmo eu vendo que ela era irresponsável financeiramente, emocionalmente, inconsequente e explosiva.

Neste ponto minhas oportunidades profissionais se esgotaram e eu me compliquei com o cartão de crédito, perdi títulos financeiros que tinham no banco e esgotei minhas economias, por tentar ajudar a “vitima”. Sim, é comum que predadores contam muitas histórias tristes, para obterem ajuda de muitas pessoas. Note que você se torna descartável depois disso.

Esse sacrifício foi reconhecido e valeu a pena? Não. Ela rompia a relação com frequência, e voltava para sugar mais. E sim, não percebi o papel de idiota que estava fazendo.

Intimidação, bullying, ameaças…

Não dá para falar sobre tudo que ela me fez, o inconsciente bloqueia, pois só recentemente aceito a estupidez da minha cegueira na época. Quantas vezes a peguei gritando comigo, com algum objeto ameaçador na mão…

Quantas vezes fui xingado, chamado de burro…? Quantas vezes fui desmerecido até fisicamente, para parecer que estava com sorte de estar com ela? Quantas noites fui dormir engolindo choro por me sentir fracassado?

Eu era, e sou, respeitado em todos os meios que me envolvo, mas ainda assim eu era desmerecido, isolado e humilhado como se não fosse bom o suficiente. Muito do que passei naquela época me envergonha até hoje, e demorará para falar tudo. Por ser homem? Sim. Porque homem não chora? Homem chora, mas fazemos isso escondidos, e como já engoli essa vontade de gritar e chorar.

Perseguição! Sendo “Stalkeado” até hoje.

Ela provavelmente está lendo este artigo, é uma certeza na verdade, a mesma certeza que vai fazer ela me ligar ou mandar alguma mensagem mal-educada. Até hoje ela ainda tenta se fazer presente na minha vida, seja espionando minhas redes sociais, trocando o número do telefone para que meu identificador não a acuse, até “aparecendo” para amigos meus.

Mas, aprendi a lição, não abro sequer uma fresta para ela.

Hoje tenho autoestima, sei que sou bonito, inteligente e uma boa companhia, não preciso sofrer por ninguém para ter alguém. Ser romântico é qualidade minha, se aproveitar disso é defeito dela.

Eu sei que tem alguém em algum lugar aí que merece meu amor e eu farei por merecer o seu.

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