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YIN E YANG NAS DINÂMICAS DOS RELACIONAMENTOS AMOROSOS

14 de abril de 2010

Por Felipe Salles Xavier

Do ponto de vista junguiano os conceitos Yin e Yang da filosofia oriental expressam valores do simbolismo de nossa psique, ilustram o funcionamento psicológico que deriva do conflito entre opostos na estrutura de nossa mente. Na filosofia chinesa eles caracterizam polaridades de diversos opostos, bem versus mal, masculino versus feminino, racional versus emocional, consciente versus inconsciente, entre tantos outros.

 

De acordo com essa forma de pensamento tudo o que existe no universo deriva desse conflito de opostos, mas o conflito não é negativo, é unificador, tornando-se é uma tentativa de combinar equilibradamente as partes do Yin e Yang.  Desse ponto de vista, nada é apenas um aspecto e se o é, se torna doentio. O ideal é utilizar todos os opostos para vivenciarmos diversas habilidades humanas.

 

Em seu livro Ponto de Mutação, o físico austríaco Fritjof Capra reuni conceitos da prática oriental com a física quântica e definiu certas característica. Yin é a capacidade de energia receptiva, cooperativa, solidária, emocional, ou seja, é a capacidade feminina da psique. Já Yang é a capacidade externa, agressiva, expansiva, competitiva, ação e mostra o lado mais animal e masculino do ser humano.

 

Na visão junguiana essas características ilustram Animus e Anima. Todo arquétipo tem sua base na experiência biológica humana. Nós somos gerados da parceria que existem entre o homem e a mulher, para existirmos precisamos do espermatozóide masculino e do ventre feminino. Assim recebemos cargas genéticas de ambos os sexos. Nossa existência se da na junção de questões básicas do DNA, somos formados a partir de 23 cromossomos masculinos e 23 femininos, totalizando 46 cromossomos numa célula chamada zigoto, dessa unificação nascem os seres humanos.

 

Os hormônios masculinos que habitam a alma feminina são a testosterona e o andrógeno, eles fazem parte da musculatura, ajudam a regular o sistema reprodutor e auxiliam que o processo da gravidez aconteça saudavelmente. No homem os hormônios femininos são a progesterona e o estrogênio, o que da ao homem auxiliam no processo energético, na massa corporal e gordura corporal. Biologicamente um habita o corpo do outro. E por termos estas bases genéticas e biológicas, herdamos também a estrutura psíquica.

 

Enfim, Animus é o arquétipo que organiza as experiências do masculino, todos os homens já são animus, pois biologicamente identificam-se através do corpo com esse arquétipo. A Anima é o arquétipo responsável pelo feminino, as mulheres ao nascerem já se identificam com essa imagem. Entretanto podem ocorrer exceções que causam disfunções psicológicas em nossas estruturas.

 

Mas, esses arquétipos vivem enquanto realidades psicológicas nos seus opostos. Todo homem possui dentro de si uma imagem do feminino, da mulher, da mãe e isso é a sua Anima, ela ensina ao homem a entrar em contato com seus lados subjetivos. E o mesmo ocorre com a mulher mas sua figura interna é o Animus que é o masculino, o homem, o pai e auxiliando o contato com o lado físico e real.  

 

Nas pessoas com um desequilíbrio entre essas funções, não existe um meio termo, ou se vivencia o lado Yin (Anima) ou o lado Yang (Animus). Isso ocorre pelo fato já dito acima, os complexos materno e paterno, por causa da inversão de papeis familiares há também um erro na percepção do feminino e masculino das mulheres. 

 

Exemplos são as mulheres que procuram homens mais velhos para se envolverem afetivamente, a nível inconsciente procuram um pai que cuide delas, e eles com a energia do complexo paterno negativo atuando acabam sendo esta imagem psíquica. Ou então, as mulheres que se envolvem com homens que procuram mães, elas dominam esses homens, os sufocam, tratando-os como crianças, isso porque a nível inconsciente procuram ser mães dos parceiros.

 

Há também o perfil de mulheres que valorizam demais o corpo e o sexo como se fosse à única coisa que tem a oferecer, isso é patológico, pois a própria mulher desconhece o feminino, e muitas dessas mulheres podem exercer o complexo materno negativo, traindo ou escolhendo homens que as traiam e as desvalorizem.

 

Já nos homens, eles podem ser homens indecisos, às vezes preferem interromper o relacionamento, tendo medo de se machucarem emocionalmente, sendo assim, trocam rapidamente de parceiras, sempre buscando relacionamentos seguidamente, se envolvendo apenas sexualmente, entretanto, isso é uma forma de defesa ao amor, pois inconscientemente tem a idéia de que não são bons para receberem isso.

 

Ou ainda, podem ser possuídos pelo complexo materno negativo, invocando a imagem arquetípicas do Don Juan, estes geralmente seguem assim procurando uma mãe-deusa, uma mulher perfeita que os faça apaixonar fortemente. Isso tudo é uma dinâmica inconsciente para os homens que são acometidos por esta imagem, eles não percebem que estão sendo manipulados por forças interiores, e além do mais, existe também uma cultura brasileira que reforça esse comportamento com diversos estímulos ambientais, fazendo as pessoas acreditarem que isso é ser homem.

A Cabala Como Esquematização do Corpo Simbólico (Parte 1)

5 de dezembro de 2009

POR FELIPE SALLES XAVIER

Nosso corpo é uma ferramenta imaginal de contato com as emoções, com os elementos da natureza que o formam, com a alma e com a mente, repetindo a história de sua criação. Para uma explicação do corpo arquetípico foi utilizada questões da Cabala no plano expressivo da manifestação do arquétipo.

 

A palavra Cabala significa “Tradição”, ela é um sistema de compreensão do mundo místico judaico, onde se acreditava que seria possível entender Deus. Mas, com o passar dos anos a Cabala evolui como forma de compreensão da organização do esquema corporal da vida, sendo chamada também de a Árvore da Vida.

 

A árvore é um símbolo sagrado encontrado nas mais diversas culturas em diferentes épocas, ela faz parte do inconsciente coletivo. Segundo a psicóloga Angelita Scárdua, ela representa a estrutura do universo, seus galhos representam a conexão com as dimensões superiores e sagradas da existência humana, já as raízes simbolizam a ligação com os aspectos inferiores, primitivos e básicos e funcionais da vida. Seus frutos dão a ela atributos positivos do eterno.

 

Sempre damos significados a algo tentado explicar a nossa própria existência, e uma forma pela qual fazemos isso é na utilização da Metáfora Espacial, que é algo simples que nos auxilia a compreensão arquetípica dos símbolos. Ela se refere às dimensões físicas, “à cima”, “a baixo”, “esquerda” e “direita”, todos estes tem uma associação em diversas áreas inclusive com o corpo.

 

Quando falamos que estamos nos sentindo bem, felizes ou com outros sentimentos positivos dizemos que nos percebemos para “cima”, e quando estamos nos sentindo mal, tristes dizemos que nos sentimos para “baixo”. Podemos ver que sempre usamos os significados da metáfora espacial em nossas vidas.

 

Na religião, nos contos-de-fada, na mitologia podemos ver que associamos o sagrado, o divino, o espiritual, o bondoso, o superior e os deuses com o espaço geográfico do alto, e quando falamos de mal, desonesto, sujo, diabo ou seres maléficos e as perdas, ligamos a idéia do espaço geográfico do subterrâneo e inferior.

 

Com essa explicação torna-se mais fácil entender o sentido filosófico e existencial da Árvore da Vida no sentido cabalístico. Na parte superior da árvore cabalística localizada na cabeça vemos a Coroa e na parte inferior localizado nos pés e pernas vemos o Reino, o que simbolicamente demonstra a conexão do sagrado com o mundano. Há também na cabala a separação do lado esquerdo com a escuridão e impureza, e no lado direito temos a fonte da luz e da pureza.

 

Sempre associamos inconscientemente a parte esquerda do corpo com algo negativo, pois biologicamente e culturalmente não desenvolvemos este lado, evoluímos desenvolvendo o lado direito. O lado esquerdo mostra no esquema corporal o coração que é símbolo da emoção e também é o lado do inconsciente, pois é o lado menos trabalhado, e nele existem muitas emoções perdidas e não trabalhadas, por isso o associamos ao impuro e ao escuro, pois está mal resolvido e escondido. Também está associado à mãe.

 

Já o lado direito é naturalmente o lado mais desenvolvido na maioria das pessoas, é o lado do “trabalho” porque evoluímos utilizando essa parte do corpo, portanto é a zona do consciente, da luz, pois é o que conhecemos e temos a percepção mais avançada.

 

A luz é o símbolo típico do conhecimento em todas e quaisquer mitologias, contos-de-fada e religiões. Isso também é biológico, basta olhar para os tempos ancestrais, nesta época fazíamos tudo durante a parte clara do dia, porque era menos perigoso e nos permitia boa visão das coisas ao nosso redor, já à noite não tínhamos auxilio da luz para enxergar nada, existiam inimigos a espreita, feras e o desconhecido. Por isso damos a luz o símbolo do conhecimento e as trevas o significado de sombrio, perigo e maléfico. Também está associado ao pai.

 

A esquematização simbólica da Cabala se organizou de acordo com a experiência evolutiva humana. Segundo o livro Zohar (Esplendor) – um livro místico judaico – ensina que a alma humana se divide em três elementos básicos o Nefesh que se associa aos instintos desejos corporais e é a parte inferior e animal da alma. O Ru’ach é associado às virtudes morais e a habilidade de distinguir o bem e o mal, é a parte mediana do espírito. E o Neshamah é a parte que nos separa claramente das outras formas de vida, relaciona-se com o intelecto, permite que o individuo tenha consciência de Deus.

 

E com Raaya Meheimna – um livro posterior ao Zohar – ainda incluem mais dois níveis. O Chayyah que nos permite ter a percepção do divino e o Yehidah que possibilita ao homem a união máxima com Deus, é a parte mais superior da alma. Isso deixa mais clara a árvore cabalística na Metáfora Espacial.

Esquematização e Mapeamento Somático: Centros Simbólicos da Cabala na Organização Corporal (Parte 2)

5 de dezembro de 2009

POR FELIPE SALLES XAVIER

Na esquematização imagética existem 10 centros cabalísticos em nosso corpo simbólico, chamados Sephirots, que significariam “esferas que emanam luz” que funcionam vinculada uma a outra. Segundo a psicoterapeuta junguiana Lucy Penna, são localizações imaginais de 10 arquétipos. Esses Sephirots são interligados gerando 22 caminhos, que seguem os princípios dos arcanos maiores do Tarô que representam imagens arquetípicas do inconsciente coletivo. Os Sephirots são os seguintes: Kether, Chokmah, Binah Chesed, Geburah, Tipheret, Hod, Netsach, Yesod e Malkhuth, e ainda uma décima primeira que não é um Sephirot, Daat. Logo abaixo seguem suas localizações e seus aspectos simbólicos.

 

Malkhuth (O Reino) – se localiza nos pés e em nossas pernas, é o contato com o solo, representa a conexão com a parte instintiva, animal é a realidade física. Engloba também a energia de sustentação do corpo e da vida, é o local da energia de telúrica, ou seja, a energia de ação, e simbolicamente é o contato com a mãe terra. Gaia na mitologia grega é a deusa-mãe terra, a criadora e geradora dos outros deuses, ela representa o interior humano, fonte de emoções mais primitivas.

 

Yesod (Fundamento / Forma) – se localiza acima do órgão genital e abaixo do abdômen, é o local que funciona como um reservatório das inteligências e da criatividade, nesse local os atributos são misturados, equilibrados e preparados para a revelação física. É o centro que reuni informações de oito Sephirots. Essa área do corpo é conhecida como o ventre, ele é o centro da consciência humana, lá equilibramos todas as energias vitais e sexuais. Representa o contato com a vida e com o feminino. Yesod é olhar para si mesmo sem usar mascara alguma, permitindo-se assim entrar em contato com o eu profundo e criativo verdadeiro. Sua imagem arquetípica é a lua.

 

Netsach (Vitória / Poder / Eternidade) – se localiza no lado esquerdo próximo entre a parte superior da coxa e a cintura, fica no local do Ílio (osso que forma a cintura), é o local aonde se abriga o centro responsável pelo o contato com o próximo, surge daí o desejo de superar os próprios limites. É ligado ao fato de saber lidar bem com as paixões e com a sedução.  Engloba ainda o principio fálico fertilizador, sendo assim representa o local do masculino.

 

Hod (Glória / Majestade) – se localiza no lado oposto a Netsach, é um canal de melhoria interna e de contato com o outro, representa a aceitação dos pensamentos e reconhecimento do eu em relação ao outro, ou seja, criação do espaço interno e individual. É o principio receptivo dos óvulos femininos. A energia criativa de Yesod surge de uma comunicação entre Netsach e Hod.

 

Tipheret (Beleza / Coração) – Situa-se no centro do tórax em cima do coração, é o centro da árvore da vida. Aqui temos a complementação de consciente e inconsciente, este local integra os opostos, trazendo assim a inteligência emocional, sendo o centro da sabedoria da vida e do entendimento sobre a luz do ego (consciência). É fonte de emoções superiores como os amores, principalmente o amor ágape. Para os gregos existem quatro tipos de amor, as quais são: Eros (o amor físico e sexual, a paixão), Storge (o amor familiar), Philos (o amor entre amigos, a amizade) e por ultimo o Ágape (o verdadeiro amor, o incondicional). O amor Ágape significa generoso, é o amor que se escolhe ter, um bom exemplo desse amor é Jesus cristo. É o centro cabalístico que tem como imagem arquetípica o sol.

 

Geburah (Justiça / Rigor) – Está localizado no ombro direito é o centro de controle dos desejos responsável por questionar os impulsos e as vontades. Centraliza a energia arquetípica a canalizando em questões objetivas no mundo real, com o ideal de superar as barreiras e transformar a própria vida.

 

Chesed (Misericórdia) – Está localizado no lado oposto de Geburah é o local que representa a vontade de compartilhar as boas emoções da vida, o impulso de se doar ao próximo e também é conhecida como compaixão. De ponto de vista simbólico é o local do intuitivo, do espiritual e da bondade.

 

Binah (Sabedoria / Entendimento) – Situa-se no lado esquerdo do cérebro, fica na área da razão do ser humano. Este ponto cabalístico influencia as definições racionais e a organização do pensamento, ou planejamento concreto de algo. Tem ligação com o símbolo arquetípico da água, que sempre esta associada ao feminino e ao futuro.

 

Chokmah (Razão / Inteligência) – Está associado ao lado direito do cérebro. É a região da intuição, das manifestações artística, da criatividade e das grandes idéias, tem como imagem arquetípica o elemento fogo, que se associa ao masculino e o passado.

 

Kether (Coroa) – É a copa da árvore, situa-se na parte superior da cabeça. É a unificação de todas as Sephirots, representa a Luz Superior, gera todo o potencial criativo. No hinduísmo é visto como o Brahma, o principio da energia vital. Nesse ponto concentram-se as experiências da vida, dando passagem ao reino espiritual. A nível simbólico podemos dizer que é o caminho iniciativo para a conexão com o Inconsciente coletivo.

 

Existe ainda um possível 11º Sephirot conhecido como Daath (Conhecimento), ela não é como os outros centro, pois não emana uma energia própria. Representa o abismo, o caos, porque é o ponto de unificação entre o corpo e o espírito, também é o contato com Deus. Se localiza entre o pescoço e o tórax, e simboliza a potencialidade masculina e conhecimento profundo de si – mesmo em relação aos sentimentos profundos.

 

A cabala nós ainda encontramos a divisão de três em três centros. Atziluth (Kether, Chokmah e Binah), Beriah (Chesed, Geburah e Tipheret), Yetzirah (Netsach, Hod e Yesod) o que denuncia a dinâmica arquetípica do corpo, possibilitando outras conexões energéticas entre seus centros.

 

O Atziluth é o “Mundo das Emanações” que é o conjunto responsável pelas irradiações das idéias. O Beriah é o “Mundo das Criações” representando o contato das emoções e sentimentos com o potencial criativo. O Yetzirah é o “Mundo das Formações”, sendo aquilo que nos permite trazer para o mundo físico algo que é interno. E ainda há o Asivah que é um único centro o Malkhuth (Reino), o “Mundo das Ações”, que nos impulsiona oferecendo energia para as atitudes.

 

Em suas separações verticais a cabala ainda faz uma ligação entre os arquétipos de Anima e Animus e sua integração (o Sizígia). O Sizígia é o arquétipo da alteridade, ou seja, é o arquétipo que trabalha na unificação e equilíbrio das diferenças do “eu-pessoal” do individuo, ele está configurado na coluna central da árvore cabalística. Anima é o arquétipo que personifica o feminino, esta relacionado à coluna esquerda sendo o centro da emoção e ao sagrado. Já Animus está relacionado à personificação do masculino, e representa a organização a ordem e o racional.

 

Com isso podemos concluir a importância dos estudos da organização da Cabala, como apoio arquetípico e simbólico para entendermos o funcionamento somato-psíquico da personalidade e dos centros expressivos dos arquétipos em nossas vidas.

 

Entendendo as correntes energéticas arquetípicas podemos entender os simbolismos dos machucados, das quedas, dos hematomas, das dores musculares e dos problemas de pele. 

 

Pois, nossa mente simbólica organiza de forma inconsciente acontecimentos para que nós possamos abrir os olhos para problemas que passamos e que de certa forma nos causam sofrimento, embora a vida nos avise de muitas questões internas mal resolvidas, muitas vezes deixamos de lado não dando o devido valor as experiências vividas, abandonando assim o valor profundos dos acontecimentos externos ao nosso corpo e mente.