O conto de fada numa abordagem Junguiana


A cada dia me encantam mais e mais as histórias dos contos de fadas, talvez porque adoro ler entrelinhas e descobrir pontos de vista diversos. Com eles desato nós, desfaço (pré)conceitos. Aprendo que as histórias têm outras feições, outros jeitos, outras formas. Aprendo sob uma ótica diferente a reescrever a minha história ou histórias.

Para Jung os contos de fada têm origem nas camadas profundas do inconsciente, comuns à psique de todos os humanos, “dão expressão a processos inconscientes e sua narração provoca a revitalização desses processos restabelecendo assim a conexão entre consciente e inconsciente”.

Pertencem ao mundo arquetípico. O arquétipo é um conceito psicossomático, unindo corpo e psique, instinto e imagem. Para Jung isso era importante, pois ele não considerava a psicologia e imagens como correlatos ou reflexos de impulsos biológicos. Sua asserção de que as imagens evocam o objetivo dos instintos implica que elas merecem um lugar de igual importância.

Os arquétipos são percebidos em comportamentos externos, especialmente aqueles que se aglomeram em torno de experiências básicas e universais da vida, tais como nascimento, casamento, maternidade, morte e separação. Também se aderem à estrutura da própria psique humana e são observáveis na relação com a vida interior ou psíquica, revelando-se por meio de figuras tais como anima, sombra, persona, e outras mais. Teoricamente, poderia existir qualquer número de arquétipos.

Os mitos seriam como sonhos de uma sociedade inteira: o desejo coletivo de uma sociedade que nasceu do inconsciente coletivo. Os mesmos tipos de personagens parecem ocorrer nos sonhos tanto na escala pessoal quanto na coletiva. Esses personagens são arquétipos humanos. Os arquétipos são impressionantemente constantes através dos tempos nas mais variadas culturas, nos sonhos e nas personalidades dos indivíduos, assim como nos mitos do mundo inteiro.

Histórias representativas do inconsciente coletivo, oriundas de tempos históricos e pré-históricos, retratando o comportamento e a sabedoria naturais da espécie humana.

Os contos de fadas apresentam temas similares descobertos em lugares muitíssimo separados e distantes em diferentes períodos. Lado a lado com as idéias religiosas (dogmas) e o mito, fornecem símbolos com cuja ajuda conteúdos inconscientes podem ser canalizados para a consciência, interpretados e integrados.

São histórias desenvolvidas em torno de temas arquetípicos. Jung tinha como hipótese que sua intenção original não era de entretenimento, mas de que viabilizavam um modo de falar sobre forças obscuras temíveis e inabordáveis em virtude de sua numinosidade, que arrebata e controla o sujeito humano, e seu poder mágico. Os atributos dessas forças eram projetados nos contos de fadas lado a lado com lendas, mitos e, em certos casos, em histórias das vidas de personagens históricas. A percepção disso assim levou Jung a afirmar que o comportamento arquetípico poderia ser estudado de dois modos, ou através do conto de fadas e do mito, ou na análise do indivíduo.

Por isto seus temas reaparecem de maneira tão evidente e pura nos contos de países os mais distantes, em épocas as mais diferentes, com um mínimo de variações. Este é o motivo porque os contos de fada interessam à psicologia analítica.

Os contos de fadas, os mitos, a arte em geral, são formas simbólicas pelas quais a psique se manifesta e que podem contribuir para a formação harmoniosa da criança. Apesar das contingências externas, das conjunturas sócio-político-económicas, há saídas para o ser humano, não somente a partir da coletividade, mas, sobretudo, a partir das metamorfoses de cada um – o caminho a que Jung chamou o “processo de individuação”.

Para Jung, “individuação” significa tornar-se um ser único, dar a melhor expressão possível às nossas características pessoais e intrínsecas.

A criança ouve a história e ela pode levá-la a uma mudança pessoal, não porque a entenda (usando, portanto, o intelecto), mas sim porque as imagens que ela contém vão diretas ao seu inconsciente, vão “trabalhar” os seus conteúdos e resolver algum problema eventual.

Apesar das suas características ditas “universais”, o conto de fadas tem sofrido alterações ao longo do tempo, de acordo com os gostos conscientes ou inconscientes de cada geração. Tal como o mito, também o conto de fadas apresenta seres e acontecimentos extraordinários, mas, em contrapartida e tal como a fábula, tende a desenrolar-se num cenário temporal e geograficamente vago, iniciando-se e terminando quase sempre da mesma forma: “Era uma vez…” e “Viveram felizes para sempre.”

Devido ao poder e à simplicidade das suas imagens, são formas de nos ajudar a despertar e operam a diversos níveis da consciência. A análise do conto propõe-nos um atalho atraente para o interior de nós mesmos, e convida-nos a efetuar um verdadeiro trabalho de auto-conhecimento e de transformação.

Os contos são mais do que ensinamentos, são uma verdadeira iniciação, misteriosa e mágica, quase sagrada. Como todas as obras de arte tradicionais, eles são sóbrios, em meios, mas ricos em símbolos e arquétipos. Os contos são um enigma cuja resolução deve ser procurada no nosso interior e não neles mesmos.

No conto A Bola de Cristal, por exemplo, o príncipe parte em busca de sua princesa que espera ser libertada. Mas quando a encontra, ela parece-lhe abominável. Então ela diz: “O que vês não é o meu verdadeiro rosto. O Grande Mágico tem-me em seu poder. Por causa dele, os homens só podem ver-me sob esta forma horrível. Se quiseres contemplar a minha verdadeira aparência, vê-me no espelho. O espelho não se deixa enganar e mostrar-te-á a minha verdadeira face”. O herói olha para o espelho e vê nele o rosto, cheio de lágrimas, da moça mais bela do mundo.

O conto é um espelho mágico no qual somos convidados a mergulhar, a fim de nos reconhecermos. Não no sentido de nos afogarmos numa auto-contemplação estéril, como Narciso, mas antes no de nos observarmos tal e qual somos, para além das aparências.

Existe em cada um de nós uma princesa encantada que achamos feia e abominável: são os nossos recalques, que vivemos sob a forma de vergonha, inveja, cólera e desencorajamento, entre outros. Se aprendermos a ver esses instintos nesse espelho de verdade que são os contos, poderemos contemplar as verdadeiras belezas que habitam em nós e que choram enquanto aguardam a sua libertação.

Essas princesas só têm um herói: nós mesmos. É a nós que compete libertar o nosso reino interior e a princesa belíssima que nos espera. É a parte mais íntima do nosso ser que encontramos no espelho dos contos e que nos conduz à libertação e ao desabrochar pleno. Existe uma identidade perfeita entre nós e o conto. O conto é a nossa história. É a encenação metafórica de aspectos nossos que ignoramos, recusamos, ou que não sabemos ver tal e qual são. Se conseguirmos penetrar no espelho e reconhecer a nossa imagem, se escutarmos o conto para nele encontrarmos aspectos concretos da nossa existência, bastar-nos-á pôr em prática as suas propostas e viver a nossa vida segundo esse modelo de verdade.

Somos feitos da mesma maneira que os contos são feitos e a função dos contos é lembrar-nos isso mesmo. Se não nos lembramos, é porque estamos sob o feitiço de um Grande Mágico, que nos subjuga, seja através de condicionamentos mentais, seja através das representações falseadas da realidade.

O conto tem por fim acordar a nossa estrutura de verdade profunda, levar-nos a experimentá-la e a pô-la em movimento, a fim de que possamos harmonizá-la com o arquétipo ideal. É ele a chave de acesso a um maior auto-conhecimento.

* Marilene Tavares de Almeida pós-graduanda em literatura infantil.

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17 Comentários em “O conto de fada numa abordagem Junguiana”

  1. LISONN Says:

    Saudações!
    Amiga Joici,
    Gostei muito da narrativa, para mim extremamente importante e oferece caminhos a alguns supostos fatos que de vez em quando se manifesta quando vou rascunhar alguma coisa inerente ao tema.
    Por exemplo, muitas vezes começo a escrever e numa espécie de insight vem um filme mental em quadros, naquele momento só tenho o trabalho de descrever o que a minha imaginação está visualizando, ou qualquer coisa nesse sentido. Face ao exposto eu pergunto: seria isso o que Jung, chama de individuação?
    Parabéns pelo excelente post!
    Abraços,
    LISON.


  2. Muito boa a matéria.
    Abraços forte

  3. joana Says:

    Ola amiga
    Adorei a sua postagem!!! Em criança me apaixonava pelos contos de afdas e ainda hoje gosto de ler.
    Beijnhos
    joana

  4. Josy Nunes Says:

    Oi,
    Amiga,
    Bom dia!
    Não sei se essa abordagem Junguiana é certa ou errada a única coisa que sei é que é muito bom ouvir um conto de fadas e contar um é melhor ainda. Ver os olinhos de quem está ouvindo brilhando e imaginar o que será que ele tá pensando e muito bom.
    bjos no coração.
    Fica com Deus

  5. Camila Says:

    Adoro contos de fada!!! Gostava quando criança e também agora justamente por poder entendê-los de um ponto de vista mais profundo! Adorei o texto!!!

    Beijinhos


  6. Caro Lison

    O processo de individuação nada + é que a ampliação da sua consciência, o individuo consegue ter um contato maior com si-mesmo. Um dos passos necessários para a individuação seria a assimilação das quatro funções (sensação, pensamento, intuição e sentimento).

    Em seus estudos sobre a alquimia, Jung identificou a meta da individuação como sendo equivalente à “Opus”, ou “Grande Obra” dos alquimistas.

    Espero ter respondido sua pergunta

    bjs

    Joicinha


  7. Principe

    Fico contente que tenha gostado do artigo, a cada dia aprendemos um pouco mais, não é mesmo?

    bjs

    Joicinha


  8. Olá Joana

    Obrigada pela participação.

    Eu quando pequena também gostava de contos de fadas,mas só fui me interessar realmente quando comecei a estudar assuntos de psicologia.Tive uma outra percepção sobre as histórias.

    bjs
    Joicinha


  9. Oi Josy

    Os contos de fadas encantam as crianças e os adultos desde a sua criação. Mas a sua função não pára aí, pois além do entretenimento, transmitem ainda valores e costumes e ajudam a elaborar a própria vida através de situações conflitantes e fantásticas. “Mitos e contos de fadas expressam processos inconscientes. A narração dos contos revitaliza esses processos e restabelece a simbiose entre consciente e inconsciente” – já havia dito Carl Gustav Jung.

    bjs

    Joicinha


  10. Camila

    É importante perceber que a força criadora e a sabedoria profunda presentes nos contos de fadas e seu conteúdo arquetípico, pode ajudar os homens a encontrar o caminho para a realização de seus poderes criativos e latentes.

    Obrigada pela sua participação

    bjnhos

    Joicinha


  11. Baby,

    Pra fugir um pouco dos contos ocidentais, poderíamos ainda citar as Mil e Uma Noites, que é uma série de contos em sequencia que passam a limpo todo o imaginário semita.

    Contos de fadas com certeza não é coisa infantil. Poderia citar tbm “Sonhos de uma noite de verão”, por Shakespeare, e as crônicas do ciclo arturiano e do Graal, cheio delirismo e romantismo fantástico.

    Foiótimo, pq vc contribuiu para extender um pouco o meu úktimo post sobre Arquétipos!!

    Não chegou a ler, né??

    Bjs Baby!!


  12. Claro que li

    Eu apenas não deixei comentário hauhaua.

    Resolvi postar sobre esse tema, para dar continuidade ao raciocínio, ou tentar né hauahuahau

    bjs

    Joicinha

  13. celiabrandao Says:

    Interessante saber que existe um blog tratando especilamente desse assunto. Sou analista Junguiana e folgo em saber .


  14. excelente matéria Joice e muito bem abordada.
    Gostei muito.

    bjs

  15. Marilene Tavares dos Santos de Almeida Says:

    Gostei muito que tenham gostado do artigo.
    abraços

    • Joicinha Says:

      Marilene, seu artigo nos ajuda a ter uma maior amplitude sobre os contos de fada. Fiquei muito contente com seu contato,isso ajuda na troca de conhecimentos e experiências. Gostariamos muito de manter contato e quem sabe uma parceria, o que acha?

      Desde já agradeço sua participação e fique a vontade para opinar nos artigos.

      abç

      Joicinha

  16. Cléa Mina Kashiwagi Says:

    Em São Paulo ninguém perde tempo analisando os contos de fada. Todas leêm estes livros quando são criança e querem ser felizes é por isso que todas gostam de Grimm.
    Caso seja uma moça portuguesa que escreveu este texto você é boazinha porque eu também não olho para barangos. Você sempre vai se casar com velhinhos. Pedi para jogar todas no hospital porque são homens e odeiam ser felizes.
    Leia Kaguyahime que é a sua história. Ela não escolhe nenhum dos presentes e volta para a Lua. Provavelmente deve ter se casado com o shachou, um velhinho.
    Gostei de vocês que inconscientemente se casam com gente que ninguém gosta. Por que não jogam seus nomes na lista do hospital?


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