O “Ritual” para Jung

É com grande prazer que inicio a parceria com o Blog Pre- Junguiano. A algumas semanas atrás, postei no blog do meu amigo Ebrael “Os Rituais do cotidiano”, onde mostrou-nos o quanto andamos no automatismo da vida e de sucessivos rituais como : rolar, arrastar-se, engatinhar, andar, falar etc.

Hoje pretendo falar desse mesmo ritual, mas na visão Junguiana, segue abaixo algumas considerações a respeito.

ritual

“Quando o iniciado, à noite, se dirigia para a gruta sagrada, oculta na solidão da floresta, a cada passo novas impressões despertavam uma emoção mística em seu coração”.(Jung)

Jung observou que desde os começo dos tempos, o homem tem recorrido a instrumentos artificiais, a ações ritualísticas, tais como danças, cantos, identificação com espíritos ancestrais, etc.

Partindo do princípio junguiano, a mente e a personalidade existem como ilhas num vasto mar psíquico, mais abaixo está o inconsciente  coletivo, do qual somos capazes de obter conhecimento e compreensão durante os rituais.

Rituais, portanto, facilitam a conexão entre as realidades exteriores e interiores, entre as esferas superiores e inferiores.

Através do ritual, podemos nos mover além dos limitados confins do self  e experimentar as “profundezas indomadas” da alma coletiva.

É através também dos rituais que podemos tocar na iminência não só do mundo natural, como também na iminência do divino.

Através de rituais, e mais especificamente, através da Invocação da Divindade dentro do ritual, nós incorporamos o Deus dentro do círculo, como dentro de nós mesmos.

Através dos rituais, nós criamos e entramos em estados alterados de consciência caracterizados pela abertura. Através deste portal, entramos nas profundezas do inconsciente coletivo, onde o poder das imagens simbólicas serve para nos ligar com pensamentos, visões e conhecimento Daquele que não se pode ver.

Quando, através da Invocação, entramos num estado mais profundo de consciência, nós nos fundimos com a imagem arquetípica e naquele momento nos transformamos em Deus.

Muitas religiões utilizam o ritual para evidenciar a crença e concretizar, de alguma forma, aquilo que é numinoso.

Para Jung a religião é uma atitude da mente, uma observação cuidadosa em relação a certos poderes espirituais, demoníacos, deificados.

O termo ‘religião’,para ele, designa a atitude peculiar a uma consciência, que foi mudada pela experiência do numinoso.

Assim sendo, pode-se compreender que o conceito de religião não é defendido por Jung no sentido dogmático ou teológico, mas como experiência religiosa do divino ou transpessoal.

“Gostaria de deixar claro que, com a expressão ‘religião’, não me refiro a um credo. Nestes termos, é certo dizer, por um lado, que toda confissão se fundamenta originalmente na experiência do numi-nosum, mas, por outro lado, também na ‘pistis’, na fidelidade (lealdade), na fé e na confiança em determinada experiência de efeito numinoso, e nas consequentes mudanças na consciência”.(Jung)

Em sua obra Psicologia e Religião, Jung tenta correlacionar a abordagem psicológica à religiosa, insistindo que a religião deve ser considerada pelos profissionais que trabalham com a área da saúde mental, uma vez que esta representaria o que há de mais antigo e universal na mente humana. Para ele as pesquisas deveriam ser realizadas à luz de uma análise fenomenológica.

Deste modo, a religião teria por finalidade estudar as forças dinâmicas externas que exercem ação sobre o sujeito.

Os rituais estão presente nos cultos religiosos para contemplar seu aspecto legal e determinista. O homem vem ao longo de sua trajetória histórica elaborando rituais com o fim de se proteger das sombras que insistem em emergir do seu inconsciente.

“Há algo de medonho no fato de o homem também possuir um lado sombrio, que não consiste apenas em pequenas fraquezas e defeitos, mas em uma dinâmica diretamente demoníaca…Mas se deixarmos esses seres inofensivos formarem uma massa, poderá surgir dela, eventualmente, um monstro delirante…Temos um leve pressentimento de não estar completos sem este lado negativo, de que temos um corpo que, projeta forçosamente uma sombra, e de que renegamos esse corpo.”(Jung)

Sobre o numinoso e o sagrado, pode-se afirmar, no contexto junguiano, que representam o divino incompreensível e, ao mesmo tempo, revitalizados como força desperta sob a forma de confiança e pavor.

“Se na psique não existissem grandes valores referentes à experiência, a psicologia não me interessaria nem um pouco, já que a psique seria, então, nada mais que um deserto miserável. Mas com base em centenas de experiências sei que ela não é assim. Ao contrário, ela contém o correlato de todas aquelas experiências que formularam o dogma, e ainda mais alguma coisa que a torna capaz de ser o olho definido para ver a luz… Acusaram-me de ‘deificação da psique’. Foi Deus  e não eu, quem a deificou! Não fui eu quem criou para a alma uma função religiosa…, somente expus os fatos que comprovavam que a alma é naturaliter religiosa…”(Jung)

Para Jung, a instância que abriga a imagem divina na psique humana é o self . Este seria um princípio ordenador da personalidade capaz de conter todas as possibilidades do ‘vir a ser’, dando significado ao símbolo.

Assim sendo, pode-se inferir que tudo o que já foi manifesto nas escrituras bíblicas e nos dogmas cristãos possui correlato com a função religiosa da psique, ou seja, são expressões do arquétipo religioso contido em cada pessoa.

“O que chamamos comumente e em termos genéricos de ‘religião’ é de modo tão surpreendente um substituto, que me pergunto seriamente se essa espécie de religião, que preferiria chamar de confissão, não teria uma função importante na sociedade humana. Ela tem o objetivo óbvio de substituir a experiência direta por uma diversidade de símbolos adequados, sob a forma de dogma ou de ritual bem organizado.”(Jung)

Jung salienta que o protestantismo tendo se despojado de muitos rituais preservados pelo catolicismo, deixou o indivíduo se confrontar com seus aspectos sombrios, o que em muito beneficiou as modernas sociedades, pois as tornou mais analíticas.

É necessário o engajamento do ego  que irá corresponder às solicitações do processo de individuação, que será o processo pelo qual os seres individuais se formam e se diferenciam; é o desenvolvimento  de um indivíduo psicológico como um ser distinto da psicologia geral e coletiva.

Esta individuação se torna um ato de significação religiosa, uma vez que confere significado ao esforço individual.

No âmbito das interações entre indivíduo e psique coletiva, entende Jung que a existência de uma atitude religiosa viva e válida é o único meio capaz de promover essa conciliação.

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3 Comentários em “O “Ritual” para Jung”

  1. Gleyser Says:

    Como faço para postar artigos e participar do blog?


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